Perigos do ESG? Dangers of ESG? ¿Peligros de ESG?

Alguém dirá que não se pode quebrar a formalidade deste tema com pontos de vista pouco ou nada ortodoxos. Porém, sair da linha por apenas dois parágrafos, permitirá conhecer um fato no mínimo curioso em relação ao maior quebrador de paradigmas, o ESG.

Quando em março de 2019 os astrólogos anunciaram que o planeta Urano entraria na casa astral de Touro, onde ficará até abril de 2026, ninguém deu muita bola. Afinal, um evento que acontece a cada 84 anos não poderia afetar a vida de tanta gente. Exceto que, por coincidência, da última vez que passou (1935 a 1942) aconteceu a Segunda Guerra Mundial e alterou a economia de várias formas, por exemplo abrindo o mercado de trabalho para as mulheres, já que muitos homens estavam nas batalhas.

Segundo quem entende desses mistérios, Urano em Touro prometia impactar exatamente as áreas do dinheiro e da economia. Aliás, o papel de Urano seria "tirar o chão" da estabilidade e da segurança, trazer mudanças e estimular a criatividade. A energia do planeta seria direcionada para um cenário inédito, diante dos abalos estruturais da economia. E, ainda, essas mudanças provocariam inovações em nossa relação com a natureza, abrindo cada vez mais o debate sobre o estilo de vida sustentável das pessoas e as práticas ecológicas das empresas.

O lado místico deste artigo fica por aqui. Mesmo porque, por outra mera "coincidência", em 2019 veio a Covid 19, que virou pandemia e deixou nosso planeta "de pernas pro ar". Aliás, de vez em quando a humanidade leva um "sacode", uma chacoalhada para "cair na real", como se diz aqui no Brasil. Como se fosse o ciclo da natureza.


Pós-Guerra e Economia Verde

A geração que viveu os horrores e as dores da guerra mundial afirma que a pandemia do coronavírus é uma experiência igual, porém diferente. É que desta vez a velocidade da informação tem permitido a troca de conhecimentos científicos, novas referências de valores e conceitos de vida, além de estimular saídas fora da zona de conforto.

Com a vacina, estamos quase diante de um pós-guerra. E como na história das descobertas e da corrida espacial... a crise e a oportunidade andam de mãos dadas. A diferença é que ao lado dos predadores e vencedores, tem um horizonte de oportunidades se abrindo também para os outros. Sem excesso de otimismo, nem fanatismo, ouso dizer que o planeta está despertando para um novo tempo de transformações!

Em 2020, durante o World Economic Forum, a declaração dos investidores que controlam as maiores fortunas do planeta não deixou dúvidas quanto aos efeitos do clima no bolso: “Sejam sustentáveis, porque a nova economia é verde. Ou os prejuízos serão incalculáveis."

A União Europeia reconheceu que o mercado de investimentos verdes é uma das áreas de crescimento mais rápido no setor de finanças. Saiu na frente e estabeleceu regras, com força de lei, para acesso ao tesouro de dezenas de trilhões de dólares disponíveis no mundo para projetos e negócios sustentáveis. Nos Estados Unidos, o presidente Biden decidiu gerar milhões de empregos verdes, liderando um movimento considerado irreversível, e que já conta com a adesão da gigantesca China.

Neste momento a mobilização é global, porque na retomada da economia, os negócios verdes podem abrir um mercado do tamanho do planeta, para grandes e pequenos.


Tempo de ESG

A principal ferramenta de análise e decisão utilizados por investidores em todo o mundo é o ESG. O termo vem do inglês Environmental, Social & Governance, ou em português, ASG, de Ambiental, Social e Governança. O ESG representa um conjunto de valores e critérios éticos que uma organização adota voluntariamente em suas atividades ou projetos.

Pelas regras, nenhuma empresa está obrigada a praticar os princípios ESG, porém cedo ou tarde terá que explicar aos investidores e consumidores, porque devem continuar confiando em quem não mostra suas Referências Ambientais, Sociais e de Governança.

Estudos apontam que praticar ESG dá retorno financeiro. Muito mais que um bom negócio entre empresas e investidores, o ESG é também um eficiente indicador para os consumidores, que aprenderam com a pandemia a importância do ambiente preservado. As novas gerações das famílias estão mais engajadas no assunto e influenciam cada vez mais nas decisões de investimento e de compra.


Perigos do ESG

O ESG não surgiu do acaso. É o resultado da evolução natural dos esforços de ambientalistas e dos alertas de cientistas. Agora, com o poder dos investidores, ficou imbatível.

Justamente por isso, a sigla pode ser "perigosa". E o maior risco é que, saltando o alto muro das decisões econômicas e dos investimentos financeiros, caia no gosto popular e entre "direto na veia" das pessoas. Deixar de ser um segredo hermético, só revelado aos iniciados, para se transformar em conhecimento capaz de emponderar e mudar, por exemplo, o comportamento de compra, seria uma "tragédia", para muitos.

Imagine se o "povo" descobre que são as agressões ambientais que provovam mudanças climáticas, e que seus efeitos associados geram os boletos cada vez mais impagáveis da energia, dos combustíveis, da alimentação, da saúde, dos transportes, da moradia, dos empregos e até... da felicidade! As pessoas podem gostar da ideia de viver num lugar melhor, simplesmente parando de consumir porcarias (em todos os sentidos). Ou quem sabe decidam deletar de suas listas os fornecedores que não respeitam a natureza, as pessoas e a ética.

Impulsionado pela comunicação digital e pelo poder de seus novos amigos de infância, essa ideia vai crescer feito fermento em massa de pão. E então, os empreendedores e pequenos empresários poderão descobrir que também podem ser ESG, que podem ser verdes, cada um do seu jeito, inspirados na centena de tons de verde existentes na natureza.


Bom Negócio

A história da economia mostra que a "Libertação" dos Escravos no Brasil foi antes de tudo um bom negócio, o que pode se repetir agora na Economia Verde. Base da economia do Brasil nos períodos colonial, imperial e início da república, a escravidão e o lucrativo comércio de escravos, feito por via marítima, apenas tiveram fim pela pressão da Inglaterra, que controlava os mares, o dinheiro dos empréstimos e a legislação internacional contra a escravidão. Em 1831 é votado o fim do tráfico, mas o comércio de negros só acabaria em 1851, quando os traficantes clandestinos retiraram seu dinheiro do negócio ao descobrirem que o governo preparava uma lei de imigração para trazer trabalhadores rurais da Europa, a construção de uma estrada de ferro para escoar a produção cafeeira e a redução das tarifas de exportação de café. O resto todos sabem. Veio a tal "Liberdade" sem indenizações ou empregos... e deu no intransponível abismo social que todos conhecemos.

Digo isso porque toda a chamada Economia Cinza, poluente e exploradora de recursos, pode "micar" nas mãos de quem não se correr rápidamente para a Economia Verde! E não seria por falta de aviso, pois a natureza tem usado a linguagem de sinais para dizer que não está bem, a ciência inventa alternativas para as fontes poluentes, o mercado da sustentabilidade e da responsabilidade social cresce em ritmo acelerado e, por fim o argumento mais forte: o dinheiro vai acabar para quem não for ESG.

O setor financeiro encontrou no ESG a resposta perfeita para todas as pressões deste novo tempo. Uma ideia simples, porém capaz de reinventar a economia, mudar costumes, transformar profissões e unir interesses de investidores, reguladores, organizações não governamentais, clientes e funcionários. E quando todas partes concordam com um bom negócio, as decisões ganham mais força que a própria lei. Outro perigo é apostar que essa transformação ainda vai demorar, porque será atropelado pela concorrência e até sair do mercado.

Depois da Revolução Industrial e da Inclusão Digital, chegou o Tempo de ESG. Perder o bonde da história seria imperdoável. Assim, o último dos perigos é "esquecer" os fornecedores e parceiros de grandes empresas, os pequenos negócios, os novos empreendedores, os profissionais empregados ou não. Todos têm o direito de ser ESG.

Mas é preciso acelerar para não perder o "timing" do ESG. Adotar estratégia de guerra, porque outros países estão avançando rápido. A senha é treinar e capacitar para o ESG, mesmo que represente "perigo".

Vamos correr esse risco juntos?

 


Edvaldo Silva
Jornalista, Auditor Ambiental e Consultor de ESG e "Green Economy". CEO da startup NatureUp!

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Última modificação em Segunda, 26 Julho 2021 02:42
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