O mundo parou. Aproveite para subir.

As famosas máscaras de tecido, recomendadas contra a pandemia de coronavírus, são o maior símbolo da possível recuperação econômica do Brasil em crise.

Sem máscaras e aventais, respiradores e testes, milhares de pacientes e médicos estão morrendo ou colocados fora de combate em plena guerra, porque os fabricantes estão concentrados num único país e já não conseguem atender a tanta demanda. Embora haja denúncias de que empresas cancelaram pedidos de povos mais pobres.

Então alguém teve a ideia de costurar suas próprias máscaras de pano. E fizeram também para seus parentes e vizinhos. E aceitaram encomendas de empresas e prefeituras. E ganharam dinheiro com isso. E pronto! Descobriram novas possibilidades de negócio.

Nada de novo. Gandhi já havia escrito parte dessa história quando liderou os indianos na produção do próprio sal, que devia ser comprado exclusivamente dos ingleses, seus colonizadores.

Por aqui, cantamos ‘Feliz Ano Novo’, brincamos o carnaval e acordamos de ressaca com a notícia de que nossa dependência dos produtos chineses atingiu proporções desastrosas.

Mas os produtos de saúde representam apenas a ponta de um iceberg do tamanho do planeta. Alguém se lembra de quando as fábricas começaram a sair de seus países e foram aproveitar a atraente mão de obra chinesa? Pois é, os empregos foram junto com elas.

É bem verdade que nossas cidades ganharam piscantes lojas de 1,99 e toda sorte de produtos “alternativos” nas “25 de Março” e nas “Saaras” espalhadas pelo país. Novos consumidores tiveram acesso aos “importados”, mas perdemos nossas fábricas e seus impostos.

Exemplo marcante foi o município paulista de Americana, que na década de 90 sofreu com a crise do setor têxtil nacional, perdendo o título de “Capital da Indústria Têxtil”. A principal causa foram as importações de tecidos de baixo custo, criando uma concorrência desleal com as tecelagens brasileiras.

Então alguém dirá: “mas precisamos continuar vendendo grãos, minério de ferro e petróleo para a China!” Tudo bem, vamos continuar vendendo “commodities”, mas também ampliar nossa oferta de minimamente processados. Se podemos agregar sustentabilidade aos nossos ativos e parar de exportar empregos, por que não o fazemos?

Se é bom exportar minérios e alimentos a granel, exportar derivados e subprodutos com alto valor agregado é bem melhor! Equilibrar a balança comercial e as relações internacionais é tarefa tão complexa quanto digna dos países verdadeiramente interessados em defender a soberania de sua gente. É ser proativo!

Seria utópico sonhar em produzir tudo o que se pretende consumir. O livre mercado sempre estará aberto ao poder das grandes corporações. Ninguém está falando em fabricar carros, computadores e celulares no fundo do quintal. Afinal, no mundo cada vez mais globalizado, nenhum país consegue viver isolado. Mas precisa estar atento e de olhos bem abertos para as ameaças e oportunidades, lembrando um dos princípios da gestão eficiente.

A atual crise sanitária e ambiental, de consequências econômicas e sociais, mostra que muitas empresas estão se reinventando para sobreviver. Porém, ninguém duvide que boas estratégias comerciais, como os serviços de entrega, serão incorporadas aos seus negócios.

As produções locais de pequenos agricultores são elogiados modelos de abastecimento. Se uma única caixa de tomates pode significar pouco ou quase nada, colocada em cooperativas forma volume capaz de atender grandes mercados. Nem tudo é intensividade e monocultura!

Apesar de pouco utilizado, o processamento industrial ou artesanal de produtos agrícolas sem classificação comercial tem sido uma saída inteligente, cada vez mais adotada por cooperativas e comunidades organizadas. O desafio de todos os setores da economia é pensar nos bilhões que diariamente vão parar nos aterros e lixões, a peso de ouro, e que poderiam gerar renda em centros regionais de reciclagem. Aceitar como satisfatórios os míseros 3% de reciclagem urbana é, sem dúvida, passar atestado de rico perdulário.

A Alemanha conseguiu se reerguer do pós-guerra incentivando empreendedores locais. Deram todo apoio às microempresas, que pagam impostos e geram mais empregos e renda.

Depois do simbolismo de produzir máscaras, o Brasil pode fabricar respiradores, comprar as tais máquinas modernas e tornar nossas indústrias ainda mais competitivas. E também qualificar profissionais, promover pesquisas científicas e criar projetos de investimento público e privado, conforme a vocação econômica das diferentes regiões. 

Diversos países, como o Japão, França e Inglaterra, já deram ordem para que suas empresas voltem da China ou escolham outras terras. A mesma velocidade do mundo conectado, que facilitou a explosão da covid-19, parece ser a arma de defesa contra novas edições da covid.

Nada será como antes da crise. As pessoas estarão mais ligadas a tudo que as coloque em risco. A ética concorrencial estará em alta. Liberdade, igualdade e fraternidade farão sentido. Ou alguém tem vontade de repetir semelhante experiência?

E até D. Pedro I, se estivesse com a caneta na mão, digo, com a espada na mão, não perderia a chance de gritar bem alto: “Independência ou Morte! A Nossa Morte!”

 

 

PS. Este artigo foi escrito na Páscoa, que originalmente representa Libertação.

 

 

Edvaldo Silva, Jornalista e Consultor de Green Economy.

Avalie este item
(2 votos)
Última modificação em Domingo, 28 Fevereiro 2021 11:09
© 2020 Melhor Cidade é Marca Registrada | All Rights Reserved.